STEP – Simpósio Tradução e Performance UFPR


II Simpósio Tradução e Performance – 13 a 15 de maio de 2026

http://instagram.com/traducao.performance / step.ufpr@gmail.com

Realização: Universidade Federal do Paraná (Programa de Pós-Graduação em Letras,  Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas e projeto Omnibus: Letras clássicas para todo mundo

Apoio: Programa Capes-Proex

Local: Curitiba, Paraná – Ed. D. Pedro I, Ria Gen. Carneiro, 460, Curitiba-PR

Encerramento: Nina Bar (Rua Marechal Deodoro, 847)

Organização:

Ana Carolina Galvão Appel

Celso Henrique Siller Baptisti

Fábio Paifer Cairolli

Layla Gabriel de Oliveira 

Luna Madsen Barbosa de Matos

Martim Ferreira Fernandes

Rodrigo Francisco Barbosa

Rodrigo Tadeu Gonçalves

Programação:

Quarta-feira, 13 de Maio de 2026

UFPR. Ed. D. Pedro I, 1º andar, Sala Homero de Barros

14h00: Mesa redonda 1: “Tradução e literatura”

Paula Abramo (UNAM-México), “Mundo de águas brabas: desafios da tradução de Macunaíma e O turista aprendiz no México”

Vitor Alevato do Amaral (UFF), “James Joyce, tradutor de ALP”.

Mediação: Rodrigo Tadeu Gonçalves (UFPR).

16h: Sessão de comunicações 1:

Victoria Toscani, “Metáfora e gênero em Yoshida Kenko”
Renata Mocelin Penachio, “Traduzir o chão que traduz: ritmo, corpo e performance nas poéticas camponesas”
Luci Rivka Ramos Mendes, “Sonata de Verão: tradução erotohistoriográfica de um poema de Celia Dropkin”
Coordenadora: Ana Appel

Quinta-feira, 14 de Maio de 2026

UFPR. Ed. D. Pedro I, Anfiteatro 100

14h00: Mesa redonda 2: “A tradução tridimensional: a triangulação da tradução indireta”
Layla Gabriel Oliveira (UFPR), “Aurora nasce, de floridos dedos: traduzindo Homero via Emily Wilson”

Ana Appel (UFPR), “Espero pelo retorno da lua”: tensão e desestabilização de sentido em traduções de narrativas indígenas sul-africanas.

Mediação: Paula Abramo (UNAM-México).

16h00: Sessão de comunicações 2:
Giovani Cazaroto. “αἰόλον στόμα: a linguagem entre o iridescente e o sísmico”
Luiz Fernando Huf. “Caminhos para a tradução das baladas de Edgar Allan Poe”

Beatriz Ilek Rey. “Cresci entre Marcs, Serges e Yvans: fragilidade masculina e os sentimentos que não suportam ser nomeados em Art de Yasmina Reza”
Coordenador: Rodrigo Barbosa

Sexta-Feira, 15 de Maio de 20026

UFPR. Ed. D. Pedro I, Anfiteatro 100

14h00: Sessão de Comunicações 3:

Guilherme Delgado, “Sobre dar à voz a um poeta: Corpo, Performance e Tradução  em “Apparuit”, de Ezra Pound”

Celso Baptisti, “Prudêncio, o lírico: sobre pensar ritmo e performance no Liber Peristephanon

Rodrigo Barbosa, “Nietzsche e a poética da forma do vir-a-ser”
Coordenador: Fábio Cairolli

16h30: Conferência de encerramento: 

“Dinastias e Dragões: o poema Beowulf como panegírico dinástico na Inglaterra medieval”.

Elton Medeiros (UFPR-PGHIS), moderação Anna Beatriz Paula (UFPR-PPGLetras)

Coordenadora: Layla

Performances poético-dramáticas:

13, 14 e 15, das 8h às 13h, no pátio da Reitoria

Traduza um poema comigo, por Luna Madsen

Encerramento:

19h00, Nina Bar (Rua Marechal Deodoro, 847): Encerramento com performances

  • Luiz Felipe Leprevost (Poeta e Diretor da Biblioteca Pública do Paraná)
  • Luna Madsen (UFPR): “Tradução-participativa de Fast Speaking Woman, de Anne Waldman”
  • Grupo de Tradução de Teatro: 3 microdramas de Wolfgang Bauer: Romeu e Julieta, Cleópatra, Sigmund Freud (Alan Santiago Norões Queiroz, Heloísa Rodrigues Pahl. Ruth Bohunovsky, Walter Lima Torres Neto) 
  • Microfone aberto

Resumos:

Paula Abramo: “Mundo de águas brabas: desafios da tradução de Macunaíma e O turista aprendiz no México”

Recentemente, graças à entrada da obra de Mário de Andrade no domínio público, começaram a se multiplicar, no México, publicações de seus textos, que até pouco tempo atrás limitavam-se a alguns poemas e à histórica —e por muito tempo única— tradução para o espanhol de Macunaíma: o herói sem nenhum caráter de Héctor Olea. Nesta palestra falarei sobre a minha experiência traduzindo, nesse contexto, Macunaíma e primeira parte de O turista aprendiz. Trata-se de textos cuja tradução desde o México apresenta desafios específicos que, se por um lado deixam claras as distâncias culturais e geográficas, por outro revelam identidades compartilhadas que destacam a importância de traduzir uma obra produzida no sul global desde outra realidade do sul global, sem seguir as pautas do mercado e da cultura hegemônica.

Bio: Paula Abramo é poeta e tradutora. Formada em Letras Clássicas, na UNAM, traduziu do português para o espanhol mais de 60 livros de autores como Clarice Lispector, Machado de Assis, Raul Pompeia, Manuel Antônio de Almeida, Júlia Lopes de Almeida, Luiz Ruffato, Ana Luísa Amaral, Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Gonçalo M. Tavares e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros. Recebeu o Premio Bellas Artes de Traducción Literaria Margarita Michelena (México) e o Premio Giovanni Pontiero de Traducción Literaria (Barcelona). É membro do Sistema Nacional de Creadores de Arte (México) e professora na Escuela Nacional de Lenguas, Lingüística y Traducción (UNAM). Seu livro de poemas Fiat Lux foi recentemente publicado pela Editora 34 em tradução de Gustavo Pacheco.

Vitor Alevato do Amaral: “James Joyce, tradutor de ALP”

Umberto Eco afirmou que as teorias da tradução que negligenciam a tradução de “Anna Livia Plurabelle” para o francês e o italiano “não terão enfrentado todos os problemas que deveriam” (“Ostrigotta, ora capesco”, 1966). “Anna Livia Plurabelle” foi publicado em livro em livro em 1928 e depois incorporada a Finnegans Wake (1939). Ainda que ambas essas traduções tenha sido consecuções coletivas, Joyce tomou parte nelas. A tradução francesa começou com Samuel Beckett e Alfred Péron, mas foi interrompida por Joyce que decidiu coordenar os trabalhos da equipe formada por Paul Léon, Eugene Jolas e Ivan Goll. A tradução italiana foi obra de Nino Frank, acompanhada de perto por Joyce. Frank deixou um importante depoimento sobre as sessões de trabalho com o autor. Queremos: 1. discutir as fronteiras entre tradução e criação, uma vez que o próprio escritor do original atuou nas traduções de ALP, e 2. propor que investigação de casos-limite da tradução literária, como este, não sejam tratados como exceções e passem a incorporar a didática da tradução literária em benefício de visões teóricas menos dogmáticas e metodológicas e mais abertas e pensantes. 

Bio: Vitor Alevato do Amaral professor de Literaturas de Língua Inglesa da Universidade Federal Fluminense e líder do grupo de pesquisa Estudos Joycianos no Brasil. É vice-coordenador do POSLIT/UFF (2022-2025). Organizou e traduziu Outra poesia (Syrinx, 2022), que reúne os poemas da juventude e os poemas de ocasião de James Joyce, e participou da tradução coletiva de Finnegans Wake (Iluminuras, 2022), ganhadora do prêmio Jabuti de melhor tradução (2023). É membro do grupo de pesquisa KEW – Kyklos de Estudos Woolfianos. E-mail: vitoramaral@id.uff.br

Elton Medeiros: “Dinastias e Dragões: o poema Beowulf como panegírico dinástico na Inglaterra medieval”.

Resumo: Esta conferência propõe uma leitura de Beowulf centrada em seu eixo sociopolítico, frequentemente eclipsado pelos elementos fantásticos da obra. Propõe-se que o poema opera como um panegírico dinástico, no qual o conflito de linhagens e as tensões tribais no poema estruturam sua narrativa. A análise busca demonstrar como a compreensão dessas relações de parentesco e poder é indispensável para o trabalho de leitura e tradução, garantindo que o rigor histórico e o ethos heroico da tradição poética em inglês antigo sejam preservados na língua de chegada.

Bio: Professor de História Medieval do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR (PPGHIS-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Cultura e Poder; coordenador do grupo ÆNEA – Estudos do Norte e Leste da Europa Antiga e Medieval.

Beatriz Ilek Reis

Título: Cresci entre Marcs, Serges e Yvans: fragilidade masculina e os sentimentos que não suportam ser nomeados em Art de Yasmina Reza

Resumo: Em Art (1994), Yasmina Reza constrói um teatro no qual a linguagem é o único espaço de ação possível e os três personagens principais são sistematicamente incapazes de usá-la para dizer o que sentem. Marc, Serge e Yvan não estão brigando sobre um mero quadro ou arte. Estão pedindo ao outro que nomeie o que nenhum dos dois consegue nomear. Esta comunicação analisa esse paradoxo a partir do conceito de economia emocional do desvio, um padrão pelo qual os afetos não circulam diretamente entre os sujeitos, mas se deslocam para objetos, terceiros ou gestos, além de uma posição metodológica encarnada: a adaptação e encenação da peça, com a interpretação do personagem Marc, por uma pesquisadora cuja trajetória em espaços predominantemente masculinos tornou esse código afetivo reconhecível de dentro. Ancorada na autoetnografia analítica e nas contribuições de Bourdieu, Butler, Jaccomard, Carroll e Hochschild, a análise demonstra que a fragilidade masculina não é propriedade exclusiva dos homens, é o produto de uma estrutura que se transmite a todos que dela participam. A reconciliação final da peça sobrevive porque não foi dita. E é precisamente aí que tradução e performance se encontram: no gesto que carrega o que a palavra não suporta.

Guilherme de Oliveira Delgado Filho

Título: SOBRE DAR À VOZ UM POETA: CORPO, PERFORMANCE E TRADUÇÃO  EM “APPARUIT”, DE EZRA POUND

Em carta de 28 de novembro de 1925 a seu pai, Homer, o poeta estadunidense Ezra Pound destaca a organização que pretendia impor ao livro Personæ (1926), reunindo toda a sua poesia até então: “[a]s coisas que estou jogando fora são as coisas ‘molengas’ e os exercícios métricos. Pelo menos o que eu me forçava a acreditar serem algo mais do que  exercícios, mas que já não me convencem de que eu tinha algo a dizer quando os escrevi;  ou nada além de um sentimento geral de que era hora de escrever um poema.” (BAECHLER; LITZ, 1990, p. 272). À luz dessa carta, temos uma primeira evidência de que o livro a que temos acesso hoje é uma edição crítica de todo o material que o autor desejava preservar. Tendo omitido as peças consideradas “molengas” e os exercícios  métricos, podemos depreender que aquilo que Pound desejava preservar era uma poesia  de impacto e experimentada. Sua menção à retirada de exercícios métricos não significou  de maneira alguma o favorecimento daquilo que alguns entendem erroneamente como  sendo a suposta essência do verso livre, ou seja, um tipo de verso que se opõe por  completo ao verso regular. O que Pound parece apontar em sua carta é o fato de que ele  buscaria preservar apenas os seus exercícios métricos mais bem-sucedidos. Basta  notarmos a manutenção de inúmeros poemas centrados justamente em metros tradicionais,  a exemplo dos experimentos com metros quantitativos, dos quais a forma da estrofe sáfica  se sobressai. É o caso de “Apparuit”, poema de Ezra Pound que iremos analisar a partir  das noções de corpo, performance e tradução propostas por Flores e Gonçalves (2017),  notadamente a do corpo que se dá à voz em tradução.

Palavras-chave: Tradução; Poesia de língua inglesa; Ezra Pound; “Apparuit”; Performance.

Luiz Fernando Huf

Caminhos para a tradução das baladas de Edgar Allan Poe

Uma das formas fixas mais utilizadas pelos poetas anglófonos do século XIX é o metro de balada inglês. Essa forma, composta por quadras cujos versos variam entre o tetrâmetro e o trímetro jâmbico, está presente nas cantigas infantis, nas brincadeiras de roda e em poemas que buscavam destacar a musicalidade de seus versos. Edgar Allan Poe compôs diversos poemas utilizando essa forma, seguindo sua teoria poética que postula que a poesia só atinge seu principal objetivo, isto é, o prazer, quando sua dimensão semântica é “velada” pela musicalidade, garantindo o que ele chama de “indefinição”. As ideias de Poe encontraram solo fértil na poesia simbolista, cujos poetas buscavam técnicas novas para gerar musicalidade em seus versos e cada vez mais sugerir uma imagem em vez de claramente delimitá-la. Assim, levando em consideração o histórico de tradução desse metro em português e os experimentos simbolistas com o ritmo da poesia brasileira, este trabalho tem como objetivo apresentar caminhos para a tradução das baladas de Edgar Allan Poe estabelecendo diálogos entre seus poemas e os dos poetas simbolistas brasileiros.

Renata Mocelin Penachio

Título: Traduzir o chão que traduz: ritmo, corpo e performance nas poéticas camponesas.

Resumo: Esta comunicação propõe pensar a tradução para além de sua dimensão interlinguística, compreendendo-a como prática relacional, rítmica, performativa, forma de relação e inteligibilidade de mundos. A partir da minha pesquisa sobre os cantos de trabalho de camponeses do norte e noroeste de Minas Gerais, investigo o que denomino poéticas do chão: regimes sensíveis que articulam linguagem, corpo, território e ritmo. Nessa perspectiva, os cantos são, para além de expressões culturais, modos de inscrição do corpo no mundo, nos quais a linguagem emerge como acontecimento do contínuo de que somos feitos. Em diálogo com Henri Meschonnic, compreendo o ritmo como organização do sujeito no discurso, deslocando o texto para a corporeidade. Traduzir, aqui, implica mover uma escuta capaz de acompanhar ritmos — humanos e não humanos — que constituem a experiência: uma tradução entendida e estendida como performance do mais-que-humano. Nesse horizonte, a reflexão aproxima-se da noção de relação em Édouard Glissant, especialmente no que diz respeito à opacidade como condição de encontro. Em diálogo com o pensamento ecológico, a etnopoética e as teorias do ritmo, proponho que essas práticas instauram uma linguagem-vegetal, na qual o corpo não apenas habita o território, mas se torna território. Nesse sentido, a tradução aparece como gesto performativo que desloca o antropocentrismo evidenciando uma dimensão cosmopoética da linguagem. Ao pensar o corpo como chão da experiência, esta comunicação busca contribuir para os debates contemporâneos sobre tradução e performance, propondo uma ampliação do campo tradutório em direção a práticas de coemergência entre diferentes formas de vida.

Luci Rivka Ramos Mendes

Título: Sonata de Verão: tradução erotohistoriográfica de um poema de Celia Dropkin

Resumo: O presente trabalho apresenta duas propostas de tradução do poema Sonata de Verão, da poeta iídiche Celia Dropkin. Proponho, como horizonte teórico e metodológico – ou seja, como projeto de tradução- uma abordagem a partir do conceito de erotohistoriografia, ideia cunhada por Elizabeth Freeman, que consiste de uma abordagem interdisciplinar que utiliza o desejo erótico e o afeto queer como ferramentas para reinterpretar a história, a literatura e práticas culturais. Para executar uma tal tradução, penso no ato tradutório – ou transcriador, em termos haroldianos – como uma forma de performance.

Victoria Toscani

Título: Metáfora e gênero em Yoshida Kenko

Resumo: A apresentação visa discutir tópicos da tradução da obra Tsurezuregusa de Yoshida Kenko, século XIV, através da análise das diferentes possibilidades tradutórias das metáforas e da distinção de gênero ao verter o texto da língua japonesa para a língua portuguesa. A proposta é argumentar sobre dois fenômenos da tradução japonês-português: a transposição do potencial imagético dos ideogramas para o alfabeto latino, mais especialmente em figuras de linguagem, e a tradução de termos naturalmente neutros para a acepção feminina ou masculina da nossa língua, utilizando de exemplos do texto de Yoshida Kenko, comparações com outras produções nipônicas e cotejos com variadas traduções.

Celso Henrique Siller Baptisti

Título: Prudêncio, o lírico: sobre pensar ritmo e performance no Liber Peristephanon

Resumo: Esta comunicação se ocupa primariamente em apresentar o Liber Peristephanon de Prudêncio, obra que retrata os martírios cristãos dos séc. I ao IV. Sob o contexto do cristianismo estabelecido como religião de Estado por Teodósio, o poeta tarraconense escreve sob variados esquemas métricos, dos eólicos tradicionais a experimentações tardo-antigas, utilizando dos santos da história eclesiástica como exempla de um império renovado. Dessa forma, observamos quais são os metros utilizados pelo poeta e propomos formas elementares de tradução aclimatativa e performance para alguns destes.

Palavras-chave: Prudêncio, Tradução, Polimetria Latina, Antiguidade Tardia.

Layla Gabriel de Oliveira

Título: “Aurora nasce, de floridos dedos: traduzindo Homero via Emily Wilson”

Resumo: Em 2017, Emily Wilson publicou a sua tradução da Odisseia, de Homero, e foi a primeira mulher a traduzir a obra para o inglês. Wilson foi clara na sua intenção de evitar a misoginia contemporânea na tradução, diferente dos seus predecessores tradutores homens, que muitas vezes optaram por termos pejorativos para retratar as personagens femininas da obra, algo que influencia a leitura. Frente ao protagonismo de Wilson e da sua tradução para a discussão sobre a importância das mulheres nas letras clássicas, e do interesse de teóricos brasileiros pelo fenômeno (Freitas, 2025; Gonçalves, 2019; Ragusa, 2023; Gabriel de Oliveira, 2025), essa comunicação tem por objetivo: 1) analisar a repercussão da tradução a partir do olhar crítico dos estudos de gênero na tradução e; 2) propor e comentar uma tradução da sua tradução para o português, apresentando trechos do poema traduzidos em decassílabos, de passagens sensíveis de retratação do feminino na obra, aproximando mais a discussão acerca da sua tradução para o cenário brasileiro. O aporte teórico inclui Susanne de Lobtiniére-Hardwood (1982) e Donna Zuckerberg (2018). A pesquisa e os resultados aqui apresentados são parte de uma tese de doutorado em andamento na Universidade Federal do Paraná. 

Palavras-chave: Tradução feminista. Odisseia. Emily Wilson.

Ana Appel

Título: “Espero pelo retorno da lua”: tensão e desestabilização de sentido em traduções de narrativas indígenas sul-africanas. 

Resumo: Na segunda metade do século XIX, dois etnólogos, Wilhelm Bleek e Lucy Lloyd, compilaram, transcreveram e traduziram narrativas indígenas da África do Sul, trabalhando em conjunto com indivíduos do povo |xam. Em um contexto pós-apartheid, Antjie Krog, renomada poeta e ativista sul-africana, adaptou, traduziu e versificou um conjunto dessas narrativas para o inglês e para o africâner em The Stars Say ‘Tsau’ e Die Sterre sê ‘Tsau’ (2004). Tendo em vista que os processos de adaptação e tradução, ao encenarem uma prática relacional, tensionam as línguas e as culturas envolvidas, a presente comunicação expõe questões da tradução dessas narrativas para o português – que, por si só, envolve uma constelação de textos –, como a desestabilização do estatuto do original e o (des)encontro de mundos.

Palavras-chave: Tradução. Antropologia. Antjie Krog. 

Rodrigo Francisco Barbosa

Titulo: Nietzsche e a poética da forma do vir-a-ser

Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar um esboço de leitura sobre o ritmo no pensamento de Nietzsche. O assunto geral, por si só, é complexo e espinhoso, até para os especialistas. Recentemente, as teorias sobre o ritmo, têm revelado as dificuldades que o alcance de sua transdisciplinaridade engloba, ao incluir disciplinas que vão da discussão “histórico-poética” à “estético-evolucionária”. Tal amplitude de campo tem exigido dos pesquisadores das diversas áreas (música, dança, sociologia ou linguagem) ter que lidar com dilemas como: a) reconhecer “o lugar preciso do ritmo” que “permanece opaco”; e b) que, ele, “o ritmo” é, “simultaneamente um fenômeno de fixação, organização da forma, da dinâmica e da mudança do fluxo das coisas” (Eldridge, 2018). São dilemas que atravessam o tempo e chegam até nós via Benveniste e Meschonnic, como bem destaca Eldridge. Neste sentido, mais do que resolver esses dilemas ou delimitar uma abordagem métrica específica que Nietzsche defenderia, interessa aqui discutir em que medida o filósofo alemão leva o problema ao limite por meio de experimentos da forma: amalgamando filosofia, ciência e arte, no anseio de um dia “parir Centauros”, Nietzsche intensifica esses dilemas produzindo experimentalmente uma “filosofia” e “poética da forma” (Zittel). É talvez, por esse motivo, que Janina Wellmann reconheça, nessa intensiva reflexão de Nietzsche sobre o ritmo (esse “novo jeito de imaginar”), um paradigma epistêmico e contraintuitivo de “descrever a contínua mudança do tempo” (Wellmann, 2017) que, em paralelo, se desdobrará como o paradigma das reflexões na área da embriologia — uma espécie de “forma do vir-a-ser” (Nietzsche, KWG II,3) para descrever o fenômeno da vida. Portanto, o interesse aqui é demonstrar como a incorporação do ritmo (em sua indiscernibilidade) e sua tematização são performadas em seus escritos na forma de uma experimentação da forma, um modo centáurico do filósofo se posicionar como “um filólogo entre filólogos” (“philologus inter philologos”), como ritmista do ouvido e não metricista do olho.

Palavras-chave: Nietzsche, ritmo, escritos, forma, vir-a-ser.

Giovanni Gabriel Cazaroto Príncipe

Título: αἰόλον στόμα: a linguagem entre o iridescente e o sísmico.

Resumo: “Obscuro”, adjetivo escolhido pela enciclopédia bizantina Suda, tem sido o epíteto que, ao menos desde então, acompanha o poema Alexandra, única obra atribuída ao tragediógrafo helenístico Lícofron de Cálcis (330–325 a.C.—?) a sobreviver integralmente. Recheado de neologismos, “neosemantismos”, barbarismos e transformações ortográficas, o poema faz valer a sua fama hermética, não somente pelo emprego de termos inovadores, mas também por sua peculiar construção discursiva que busca nos preceitos enigmáticos das máximas oraculares sua referência estrutural. Vê-se, pois, justos e suficientes motivos para designação bizantina; porém, as complexidades se avolumam ainda quando nos deparamos com a confluência temática e de arranjo: a narrativa em si traz o monólogo de um mensageiro ao rei Príamo de Troia a respeito das falas da princesa Cassandra, aqui denominada de Alexandra; refere-se, pois, ao quadro tradicional do mensageiro das tragédias gregas, porém não há diálogos e a temática épica pré-guerra de Troia soma-se à trágica, pós-guerra com amarrações buscadas em historiógrafos; além disso, o apelo ao grotesco por vezes faz reverberar uma coloração cômica; ou seja, o poema não se deixa conter pelos apriscos dos gêneros (Vieira, 2017, p. 7-21). Seria possível, no entanto questionar, após dois milênios a permanência do adjetivo “obscuro”, como parece ser o caso de Hornblower (2015, p.v) ao sugerir a “inequivocidade” de trechos controversos do poema bem como a desqualificação de Lícofron e seu entorno cronológico como produtor da obra. Buscamos, no entanto, um caminho mais parcimonioso recorrendo a perspectivas da análise do discurso levantadas pela Análise do Discurso, mais diretamente Milner (1978-2012) e Gadet e Pêcheux (2004), não tentamos desfazer os nós dos enigmas para encontrar a matéria oculta de que são feitos; mas analisamos seus entrelaçamentos na expectativa de que seus muitos laços nos localizem, se não o artesão, a possibilidade espaço-temporal da tecelagem que os configuram. 

Palavras-chave: Análise do discurso, Alexandra, Lícofron


1º Simpósio Tradução e Performance

PGLetras UFPR

2 – 4 JUN 2025

Edifício D. Pedro I, Anfiteatro 100

Performances nos dias 3 e 4 de junho: Casa Pagu – Rua Benjamin Constant, 400

Programação:

>Segunda-feira, 02 de junho

14h ANFI 100 Conferência: “Traduções coletivas: traduzindo literatura brasileira a muitas mãos no Chile” – Leticia Goellner (PUC-Chile). Anfiteatro 100.

16h ANFI 100 Mesa-redonda: Celso Baptisti: “Tradução e símbolo n‘A edificação do templo da alma’ (Psych., vv. 823-887)”. Guilherme Bernardes: “Na cabeça o xampu, lave bem o seu… pé!”: tradução e performance de Rimas-mentais. Layla de Oliveira: “Desde o início”: traduzindo o proêmio da Odisseia, de Emily Wilson”. Rodrigo Barbosa: O “último discípulo do deus Dioniso” veste a jaqueta do “joão-linguiça”. Mediação: Fábio Paifer Cairolli.

19h ANFI 100 Fala-Performance: “A letra, a voz e o som: algumas hipóteses sobre leitura e sonorização de poemas” – Jeanne Callegari.

>Terça-feira, 03 de junho

14h ANFI 100 Conferência: “Voz, performance e a Antropofagia de Oswald de Andrade” – Lucio Agra (UFRB).

16h ANFI 100 Mesa-redonda: Lucas Lazzaretti: “Expressão e sentido: uma reflexão sobre a tradução de Alfabet de Inger Christensen”. Julia Raiz: “Uma triangulação erótica: tradução – ações performativas – escrita”. Luna Madsen: “Performance como dever poético em Anne Waldman”. Nicolas Wolaniuk: “Aristófanes na rua: o processo de montagem e adaptação d’As Rãs pelo Grupo Hápax”. Mediação: Rodrigo Tadeu Gonçalves.

19h CASA PAGU Performance: “As Rãs” – Grupo Hápax

>Quarta-feira, 04 de junho

14h ANFI 100 Mesa-redonda: Eduardo Vicenzi: “Tradução e Performatividade na clinica psicanalítica”. Luciane Mendes: “Traduzir de ouvido: ritmo e voz em 3 poemas de Hilda Doolitle”. Tom Jones Carneiro: “Oraturas do Xangô do Recife – tradução-oriki e experimentações poéticas”. Sergio Maciel: “Traduzir o miasma, resgatar a fúria n’As Fenícias de Sêneca”. Mediação: Guilherme Gontijo Flores.

16h ANFI 100 Conferência: “Homero no teatro” – Octavio Camargo (UFPR)

19h CASA PAGU Performance: “Iliada, Canto 17” – Adriano Peterman; Jeanne Callegari – Performance poética e Pecora Loca – “O show de Catulo”.

Comissão organizadora: 

Guilherme Gontijo Flores

Fábio Paifer Cairolli

Rodrigo Tadeu Gonçalves

Alan Santiago

Carlos Neves

Celso Baptisti

Giovanna Campara

Giovani Cazaroto

Layla Gabriel de Oliveira 

Luiz Huf

Luna Madsen

Martim Fernandes

Rodrigo Francisco Barbosa

Rubia Santiago Gonzaga

Proposta:

Aproveitando o histórico de trabalhos e publicações dos docentes e discentes da UFPR ligados aos domínios da tradução, performatividade, performance, crítica, criação e recepção de textos literários e filosóficos, este simpósio visa inaugurar um espaço periódico de encontro e de discussões sobre projetos tradutórios e estudos sobre tradução e performance, em que as palestras, mesas redondas, apresentações de trabalhos e apresentações culturais girem em torno dos seguintes temas:

(a) performance e comentário de traduções literárias próprias ou objeto de estudos de discentes e docentes

(b) estudos sobre a dimensão performativa da tradução e suas relações com a filosofia, a crítica literária e as teorias da recepção

(c) estudos relacionados à tradução como criação e como crítica

(d) estudos relacionados à tradução feminista, aos estudos de gênero e aos estudos de performance